9 de maio de 2017

Vamos falar de sintomas

As poucas pessoas que sabem do meu esgotamento, perguntam-me como é que se consegue perceber esse estado e o que o distingue da depressão. Eu não posso falar pelos outros, mas posso falar por mim. 

Do início. 

Sempre fui uma pessoa com o sono leve. Qualquer barulho me desperta e é raro não acordar mais do que uma vez durante a noite. E depois do nascimento do meu filho as insónias agravaram-se. Mas ignorei. Achei que era normal, afinal os primeiros tempos com um bebé são de adaptação e o sono altera-se sempre. Estamos sempre a acordar para dar de mamar, porque ele chora, por isto ou por aquilo. 

Acontece que o tempo foi passando e eu continuei sem conseguir dormir. O meu filho já dormia a noite inteira mas eu... nada! Não havia maneira de pregar olho! Houve uma altura em que estive uma semana inteira sem conseguir dormir, só para terem uma ideia. 

Comecei a queixar-me à médica e foi aqui que ela me receitou comprimidos para dormir. Melhorei? Muito pouco. Podia haver uma ou duas noites que dormia bem, mas nas restantes não descansava nada. 

Os primeiros sintomas começaram a surgir mas estava longe de imaginar do que se tratava. Achava sempre que andava mais cansada porque não dormia, o que não deixava de ser verdade, mas o corpo já não reagia por mais que me obrigasse a descansar. 

O cansaço era evidente. Olhos escuros, pele pálida, falta de energia (pegar no meu filho ao colo cansava-me como nunca imaginei)... Todos os dias tinha dores de cabeça... E quando senti a sério que não andava mesmo bem foi quando comecei a perder o raciocínio com frequência. Não conseguia reter o que estava a ler, esquecia-me das coisas mais simples com facilidade... 

Num fim de semana qualquer, acordei com a cabeça a latejar. A dor era mesmo forte e não melhorava, tomasse eu o que tomasse. A par dessa dor, comecei a sentir o olho esquerdo sempre a tremer. Fui parar ao hospital e depois de exames e análises feitos para despistar outras problemas, a médica perguntou-me: há quanto tempo é que não dorme? Há quanto tempo é que se sente assim? É que basta olhar para si para perceber que está extremamente cansada. 

Foi aqui que me falaram pela primeira vez em esgotamento. Nunca a palavra depressão foi mencionada, porque era a exaustão o mais evidente.

Daqui dirigi-me à médica de família que me encaminhou para neurologia. Acho que ela desvalorizou o esgotamento e centrou-se apenas nas dores de cabeça constantes. Para ela, bastava que começasse a dormir melhor para que o cansaço desaparecesse. 

Na consulta de neurologia e depois dos devidos exames feitos, voltou-se a falar em esgotamento. As enxaquecas eram resultado desse meu estado físico. 

Entretanto, houve uma mudança de médica de família e a nova, que achou que estava mal acompanhada, encaminhou-me para outra especialidade: psiquiatria. É esta que trata os esgotamentos físicos, nervosos ou emocionais.

E cheguei onde estou hoje. Agora sim, sei que estou no caminho certo. E o facto de estar a ser acompanhada por uma psiquiatra não faz de mim uma doente mental. Nem a depressão foi mencionada nas consultas que já tive, porque no meu caso e, segundo palavras da própria médica, não faz sentido. Eu não tenho uma depressão porque não apresento os sintomas dela. Não passo os dias a chorar, nem apática. Não me sinto triste nem ansiosa. Não perdi a vontade de viver... Entre muitos outros que denunciam esse estado emocional. Os sintomas podem confundir-se, é verdade, mas se a médica diz que o meu esgotamento é físico, é porque assim é. Mas como é óbvio, quando nos sentimos mais em baixo fisicamente, o foro emocional também pode sofrer alterações. Eu posso dizer que estou apenas mais desanimada porque não gosto de me sentir doente. E, convenhamos, o cansaço - sobretudo o extremo - mexe com tudo. Com o corpo, com a mente... com tudo.

E é isto. Agora sei que estou bem medicada e acompanhada e o meu tratamento não passa apenas pelas consultas e pelos medicamentos. Faço caminhadas e comecei com meditação. Ainda está tudo no início mas acredito que pode ser uma mais valia. Porque um esgotamento passa pelo corpo e pela mente e é preciso cuidar dos dois. 

3 comentários:

Just me disse...

Foi um longo percurso, mas agora estás no bom caminho! :) Quando somos bem acompanhadas, medicamente falando, tudo se direcciona para uma boa recuperação. Beijinho e obrigada pela partilha da tua experiência

Ellie disse...

Just me: é verdade, tem sido um longo percurso. Mas acredito que esteja a chegar à reta final. ;)


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Coquinhas disse...

O que nao esta bem tem que ser tratado. E agora sera mais facil :)